Monumento encontrado em 1944, durante as obras de abertura da Avenida Marechal Gomes da Costa, numa zona que não fazia parte da área urbana de Felicitas Iulia Olisipo, mas do seu território rural. Trata-se de uma ara, ou seja, de um altar. Este tipo de monumentos servia dois fins: o de receber um texto que se gravava no seu fuste; e o de servir de mesa de apoio a vários tipos de rituais religiosos.
Neste caso, a ara, de dimensões modestas, tem aspecto geométrico tanto na sua base, como no seu fuste com inscrição gravada. A sua parte superior (que está incompleta) apresenta o que resta de dois toros (pulvilli) sumariamente esculpidos e sem qualquer decoração, enquadrando uma concavidade (focus) feita em relevo. Seria nessa concavidade (actualmente quase imperceptível) que seriam derramados líquidos e queimados óleos e ervas aromáticas em honra da divindade.
As aras são monumentos epigráficos cujo texto se relaciona sempre com o universo do sagrado. Neste caso, o texto, KASSAECO/ VOTVM ANIMO LVBENS/ M(arcus)· CAECILIVS/ CAENO· S(olvit)· (A Kassaecus, Marco Cecílio Cenão, cumpriu de livre vontade), recorda o cumprimento de uma promessa a uma divindade cujo nome é Kassaecus, por Marco Cecílio Cenão, de sua livre vontade.
Esta obscura divindade não pertence ao panteão romano e este monumento é a única prova do seu culto. Trata-se certamente de uma divindade indígena que tinha os seus fiéis na região de Lisboa, muito antes da chegada dos romanos. O aparecimento desta ara não só demonstra a sobrevivência de cultos indígenas ancestrais durante o período romano, como também demonstra que esses cultos se romanizaram. De facto, a ara é um monumento que, no território nacional, só aparece sob influência romana.
Nada sabemos sobre este deus desconhecido, mas graças a este monumento ficamos a saber que tinha fiéis e que era honrado na zona rural oriental do territorium do município de Felicitas Iulia Olisipo. Nada conhecemos dos rituais ancestrais que eram devidos a Kassaecus, mas ficamos com a certeza de que a esses rituais antigos se vieram juntar, durante a época clássica, os rituais religiosos romanos, que tornavam a ara uma peça de mobiliário religioso obrigatória para se proceder às libações e às fumigações, tão habituais nos gestos religiosos romanos.