Prova de artista, edição 1/3.
Díptico de Ângela Ferreira, pertencente à série “Hortas na auto-estrada: jardins portugueses”
Na actual Lisboa urbana permanece ainda latente a nostalgia dos espaços rurais, de uma perdida herança campesina, ou simplesmente de uma Lisboa que nunca deixou de ser rural, que através dos séculos preservou a sua ruralidade e que, por circunstancias naturais ou de necessidade, já só encontra nestes breves talhões entalados entre quintais nas traseiras dos prédios ou nas vias de circulação das áreas suburbanas, o espaço para dar continuidade a este um longo ciclo.
Para a população lisboeta de origens tão diversas, as “hortas” tem uma longuíssima tradição e, com a industrialização urbana do início do século XX, a população operária que se instala nas franjas de Lisboa, vai recriar em pequenos quintais os seus habitats de origem, encontrando no ritual do cultivo de legumes e hortaliças referenciais de vivências passadas.
Actualmente a manutenção de espaços agrícolas integrados nas estruturas urbanas tem um importante papel, quase ecológico, no crescimento sustentável da cidade e na promoção da sua qualidade ambiental e vivencial e surgem conceitos como “hortas urbanas”, hortas sociais, hortas pedagógicas, hortas de recreio.
No entanto, ficam frequentemente de fora os outros espaços abertos que apareceram como meros resíduos entre o edificado, formando partes desarticuladas de pouca ou nenhuma coerência, muitos deles precisamente quase como remendos no parco espaço disponível e nitidamente com o propósito de suprir necessidades alimentares às populações de poucos recursos, paulatinamente empurradas para as periferias da grande cidade.