Nesta pintura, Francis Smith (1881 – 1961) apresenta uma perspectiva da encosta do Castelo. A composição é desenvolvida em dois planos, marcadamente definidos pela diferenciação entre a intensidade cromática utilizada em cada um deles.
No primeiro plano, esta rua de Lisboa é definida pelo serpentear de umas “escadinhas”, limitadas por um gradeamento, que surgem no meio dos edifícios. Estes, são pintados de cores intensas, embora contrastando com o branco de alguns dos seus alçados e, num deles, evidencia-se uma balaustrada de ferro forjado. A presença de alguns tipos populares, nomeadamente uma varina e uma lavadeira, fazem adivinhar os pregões característicos da Lisboa em meados do séc. XX.
O segundo plano, em tons mais suaves mas de intensa luminosidade, ocupa o canto superior esquerdo da composição, impondo a impressão de janela aberta sobre a cidade. Aqui, sob um céu de azul, a sobreposição “desorganizada” do casario ao longo da colina deixa adivinhar o traçado irregular das ruas desta zona da cidade.
Conhecido como “cronista de Lisboa ausente” ou “pintor da recordação”, Francis Smith fixou-se em Paris a partir de 1902. A sua obra caracteriza-se pela afirmação intencional de uma certa ingenuidade da representação, plasmada em inúmeros quadros com recantos de Lisboa, pintados de memória e que reflectem, assim, uma cidade reinventada.