Esta obra revela um dos inúmeros recantos de Lisboa retratados por Roque Gameiro (1864 – 1935), a Rua de S. Miguel em Alfama. Aqui, a estreiteza da rua é acentuada pela verticalidade dos edifícios. Ao fundo, banhada por um intensa luminosidade, ergue-se uma torre de igreja e, como contraponto, no primeiro plano, já envolto por sombra, é possível apreender inúmeros pormenores dos edifícios.
Mas, mais do que uma visão fisionómica desta rua, nesta pintura são-nos reveladas vivências e actividades de alguns dos tipos populares característicos deste bairro. Desde o marialva que toca guitarra, ao saloio que passa, às mulheres que conversam à soleira das portas e a uma outra que estende a roupa, todos são personagens intervenientes deste específico contexto citadino.
Naturalista, Roque Gameiro tem sido frequentemente referenciado como um dos primeiros aguarelista portugueses. Seguindo a corrente estética do naturalismo e utilizando uma técnica extremamente expressiva, toda a sua obra reflecte uma busca pela reprodução da paisagem real, surgindo o artista como um mero espectador, impondo a si mesmo uma atitude de objectividade perante a realidade visionada.