Esta obra, correspondendo à primeira fase da produção artística Lima de Freitas (1927 – 1998), contextualizada na sua adesão à corrente neo-realista, retrata uma varina transportando uma canastra à cabeça, tipo popular tão característico de Lisboa, aqui representada sobre um fundo de recortes geométricos que sugerem a ideia de um vão dum qualquer edifício de uma rua de Lisboa.
Aqui, recorrendo a um elevado grafismo e através de um jogo cromático que se define pelo contraste entre as pinceladas grossas de tonalidades escuras e o branco intenso, apenas presente nos braços e no rosto da figura, o pintor revela uma concepção da imagem que ultrapassa a própria “realidade visível”. Mais do que um retrato físico, surge assim uma composição que encontra os seus fundamentos na percepção do autor quando perante o modelo retratado.
Pintor e ensaísta, Lima de Freitas exerceu destacado papel na imposição da corrente neo-realista em Portugal. Com uma intensa produção, essencialmente assente na busca do entendimento profundo do quotidiano, a sua obra incorpora características de diferentes movimentos artísticos da segunda metade do séc. XX, indo desde o surrealismo até à abstracção.